terça-feira, 15 de abril de 2014

Conhecendo Mario Baldi - parte 1

Entre os índios Bororo de Mato Grosso. 1934-35. Coleção Mario Baldi, Weltmuseum Wien.
Criar uma tese de doutorado partindo do pouco ou quase nada que se sabe a respeito de um assunto não é um desafio dos mais fáceis. Mas existem pessoas que, pelo prazer do saber, se dedicam a elas com todo afinco. Conforme noticiamos no início deste mês, nosso historiador Marcos Lopes é um desses apaixonados pelo conhecimento que decicidiu pesquisar a trajetória do fotógrafo austríaco Mario Baldi para nos mostrar o quanto ainda desconhecemos nossas próprias raízes, nosso próprio povo. Pedimos a ele então que elaborasse um texto bem básico e bem simples sobre sua tese a respeito, para que divulgássemos ainda mais o conhecimento sobre Baldi. Marcos nos preparou um texto magnífico e bem detalhado sobre todo o assunto. Leia a primeira parte a seguir:

"A pesquisa sobre o fotógrafo e jornalista austríaco Mario Baldi, que viveu no Brasil a partir de 1921 até 1957, começou sem aviso prévio. Em 2006, quando buscava documentos para uma pesquisa encomendada sobre um bairro rural da cidade de Teresópolis, num pequeno arquivo público, me deparei com algumas fotografias de 1922 que representavam tropeiros de batatas, com suas mulas. Eram imagens feitas pelo austríaco e que, como soube em seguida, faziam parte de uma coleção de milhares de fotos pouco catalogadas e nunca antes estudadas.


Nosso historiador Marcos Lopes, acompanhado pelo fotógrafo Leonardo Wen, analisando fotos de Mario Baldi.


Mario Baldi, nascido na Áustria e falecido no Brasil, foi um fotógrafo esquecido após a morte e amplamente desconhecido até meados da década de 2000. Alguns fatores contribuíram para isso, como as circunstâncias da sua morte e a trajetória dos seus documentos, fotografias e negativos. Durante os anos de 1954 e 1956, Etta Becker-Donner, então diretora do Museu de Etnologia de Viena (atual Weltmuseum), visitou o Brasil a fim de fazer trabalhos de campo etnográficos, linguísticos e arqueológicos no território de Rondônia. Na ocasião, adquiriu de Mario Baldi 30 fotografias produzidas entre os índios Bororo, Carajá e Tapirapé e levou para Viena a primeira fração da produção do fotógrafo. Em 1959, dois anos depois o trágico falecimento do fotógrafo entre os Tapirapé, o museu vienense recebeu parte de sua herança. Ainda que as condições deste envio e recebimento não estejam completamente esclarecidas, há boas chances de o prévio encontro entre Becker-Donner e Baldi ter contribuído para o deslocamento de parte da coleção para a Áustria. A parte do material recebido por Viena era composto por 386 objetos etnográficos da tribo dos Carajá e o que parecia ser seu arquivo fotográfico: quatorze caixas contendo ampliações ordenadas tematicamente, folhas-contato organizadas em cartões, mais de dez mil negativos e uma quantidade pequena de diapositivos. Apesar das inscrições esporádicas no verso das ampliações, o acervo não dispunha de informações documentais escritas, o que fez com que fosse catalogado de maneira primária, ainda que o seu valor e interesse tenham reconhecidos a partir do conteúdo visual da coleção.


Indiozinho Carajá retratado próximo à câmera de Baldi.


Passados quase 30 anos e sem o conhecimento do museu vienense, no fim dos anos 1980 o Serviço do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (SPHAC) da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Teresópolis (cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro) recebeu, do escritor e médico Arthur Dalmasso (1920–2006), a outra parte da herança de Mario Baldi. A doação de Dalmasso incluía não só ampliações fotográficas e folhas-contato, mas também artigos ilustrados, cartas, diários e toda sorte de documentos próprios dos arquivos pessoais.

Nesta época, o SPHAC estava ainda começando suas atividades no campo da preservação dos acervos históricos da cidade de Teresópolis, cidade por onde Baldi circulou e residiu nos últimos anos da sua vida. O conjunto dos seus documentos foi o primeiro a compor um fundo arquivístico completo da instituição. A professora Regina Rebello, responsável pela recepção da doação e pela organização preliminar do material, observou que o acervo se tratava de uma preciosidade para a história local, pois continha relatos sobre a região serrana do Estado do Rio de Janeiro, especialmente sobre Teresópolis, feitas na década de 1920 por Baldi. Além disso, a diversidade cultural brasileira representada em milhares de fotografias de diversas regiões do país e um inédito diário da Primeira Guerra Mundial completavam o tesouro histórico e cultural que seria doravante preservado. Hoje sabemos que existem mais de 7.000 fotografias (entre contatos fotográficos e ampliações) na parte brasileira da coleção Mario Baldi.


Folha de Contato de Mario Baldi sobre os índios Carajá, datada de 1938, pertencente
ao Acervo Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Teresópolis.

A Tese de Doutorado em História Social que acabo de defender tem como título "Mario Baldi: fotografias e narrativas da alteridade na primeira metade do século XX". Minha intenção foi estudar como Baldi representou a alteridade cultural no Brasil, ou seja, como via, fotografava e narrava a existência de indivíduos que eram considerados “diferentes” e, mesmo assim, faziam – ou deveriam fazer – parte de um mesmo Brasil. Nesse sentido, selecionei as imagens e reportagens que tratavam dos índios brasileiros."

Continua...

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Uma pequena maravilha


O "pequeno grande quadro" de Decio Vilares: registro utilizado para montagem de nosso museu.

Posicionado estrategicamente em uma das paredes do hall de entrada em nosso museu, há um pequeno quadro que impressiona muito, e que se acaba se impondo inclusive a peças maiores. Trata-se de uma obra atribuída ao pintor Decio Vilares - que retratou alguns momentos da vida da família de Benjamin Constant - que mostra nosso patrono trabalhando em seu gabinete, com uma criança ao lado. Muito já se especulou sobre o trabalho mas algumas ideias são recorrentes, tais como:
  • A criança na imagem é um dos filhos de Benjamin quando criança, provavelmente sua filha mais velha, Aldina.
  • O gabinete de trabalho do quadro é, provavelmente, a sala de trabalho do Professor Benjamin Constant no antigo Instituto dos Meninos Cegos, localizado no antigo "Campo da Aclamação", hoje o conhecido Campo de Santana, no Centro do Rio de Janeiro.
Mas o mais curioso, para quem vem nos visitar e presta muita atenção à tudo, é o fato de que, o último escritório pensado para ocupação por parte de Constant, dentro do museu casa, é praticamente igual ao que está representado na pequena obra. Como se explica isso?

Na verdade, de posse de parte dos pertences de Constant e com sinal verde para montar o museu, a museóloga Hercília Vianna copiou fielmente a ambiência da figura, tendo providenciado inclusive peças de interiores que não eram as originais da casa, mas que simularam perfeitamente o espaço como fora originalmente. Nota-se os pequenos quadrinhos, as luminárias, a mesa, os armários (estes últimos, originais), entre outros detalhes.

Por este motivo, em sua próxima visita a nosso museu, não deixe de observar com atenção o pequeno quadrinho à direta, logo na entrada do Hall: nele você vê "o quê" e "o quando". E, olhando à esquerda, para o "escritório" da casa, você perceberá o quão belo é o trabalho de ambientar um espaço histórico, recriando-o como na época em que esteve em uso por parte da figura que viveu em tal lugar.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Nosso "Doutor Verde"

Olá, estamos de volta de nosso recesso!

Nosso novo Doutor, Marcos Felipe de Brum Lopes.

E de volta com uma novidade das melhores: o historiador de nosso museu, Marcos Felipe de Brum Lopes, acaba de receber seu título de Doutorado em História! A tese foi defendida na Universidade Federal Fluminense - UFF - e foi centrada no trabalho do fotógrafo Mario Baldi, nascido em 1896 em Salzburg, na Áustria, que trabalhou no Brasil nos anos de 1921 a 1928 e de 1934 a 1957. Em seu trabalho, Baldi focou nossos índios e seus registros fotográficos são dos mais importantes para a história brasileira e de seus habitantes originais.

Marcos Lopes entre o Secretário de Cultura de Teresópolis, Wanderley Peres, e o diretor
do Museu de Etnologia de Viena, Christian Feest, avaliando o acervo de Mario Baldi
na cidade. Foto: O Diário

Mas, voltando ao Marcos, podemos caprichar nos predicados sem medo de errar: servidor dos melhores, pessoa humana das mais sensíveis e colega sempre presente, Marcos merece todo nosso carinho, respeito e admiração pelo feito pois, em paralelo a seus estudos também realiza pesquisas sobre nosso museu - em particular a que apresentamos aqui - apoia outros pesquisadores que nos procuram em sua busca pelo conhecimento, é o responsável pelo Arquivo Histórico e Bibliográfico de nosso museu, e estuda línguas como forma de complementar um currículo que já é dos mais bem formados. Isso tudo sem falar pelo seu gosto pela natureza e por sua preservação, o que nos levou a criar o "título" de "Doutor Verde" para ele, nesta ocasião. Sempre próximo a ela - nasceu e foi criado junto ao cultivo de produtos agrícolas - valoriza a agricultura orgânica e a agroecologia como práticas que aprendeu desde menino com seu pai e seu avô. E aqui mesmo, em nosso museu, é um entusiasta responsável por diversas ideias e novidades em nossos recantos verdes: canteiro ecológico, parque e trilhas.


Marcos Felipe e sua banca examinadora: sucesso afinal!
Esperamos que Marcos alcance todo o sucesso possível em seus trabalhos, pois ele merece. E, para completar o ano, além de ter apresentado sua tese com muito reconhecimento, vai ganhar um outro presente e outra grande responsabilidade: será papai em meados do ano - uma vida nova com felicidades e desafios que, sabemos, ele saberá viver!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Comissão A3P - Um pequeno balanço- Parte IV

Os servidores Henrique e Mercia (de pé), principais membros da Comissão A3P
em nosso museu, em um treinamento sobre o assunto.

Em uma reunião realizada em nossa sede administrativa neste mês, foi feito um pequeno "balanço" das ações da Comissão A3P de nosso museu e de como seria possível avançar ainda mais. Com a participação da direção e dos servidores membros da comissão - Henrique Florêncio e Mercia Freire - o exercício de reflexão e de avaliação do que foi realizado até aqui foi bastante proveitoso.

Mercia iniciou a conversa colocando que, apesar de todos os objetivos já alcançados, é preciso avançar mais na implantação da A3P, no sentido de se produzir mais atividades de sensibilização da equipe interna e também da comunidade/entorno do museu, ao que a direção esclareceu que é preciso estruturar as ações educativas em curso em nossa unidade para que tal possa ser realizado.

Nossas lixeiras da coleta seletiva: além de tudo feitas com bambus de nosso parque, economizando materiais e transporte.

Já Henrique destacou a proximidade da implantação da Política da Logística Reversa, preconizada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS – da qual a A3P faz parte. Em resumo, esta diretriz preconiza que “todas as entidades (indústrias, comércio, governo, etc.), devem reutilizar ou absorver os resíduos que geram/produzem” e, neste ponto, já avançamos bastante, tendo em vista nossa composteira, que reaproveita resíduos de nosso parque de nossa cozinha. A diretriz deverá ser praticada de forma global até o final de 2015 e nosso museu já está bem à frente neste particular.

Nosso Canteiro Ecológico, inaugurado no ano passado, onde práticas sustentáveis são demonstradas aos visitantes.

Verificou-se que várias das propostas de ação previstas no Plano de Trabalho assinado entre o IBRAM e o Ministério do Meio Ambiente ainda em 2012, quando do adesão de nosso órgão à A3P, já foram plenamente postas em prática, tendo como destaque:

  • A extinção de todos os copos descartáveis;
  • A redução drástica do uso das toalhas de papel descartáveis da cozinha;
  • A implantação da coleta seletiva em todas as áreas, com criação de lixeiras em material sustentável - bambu - extraído de nosso próprio parque - economizando desta forma o transporte de materiais, o que economiza Co2;
  • A troca de mais de 90% das lâmpadas por lâmpadas econômicas.

Entre sugestões e ideias para dinamizar e expandir as atividades da comissão, ficaram acertadas as seguintes ações de curto prazo, já previstas no Plano de Trabalho do IBRAM, para acontecerem até 2017:

1 – Realização de pesquisa/diagnóstico interno, através de questionário, com o objetivo de levantar o que pode ser desenvolvido para gerar reduções do impacto das atividades cotidianas;

2 – Realização de sensibilização interna com o novo grupo de profissionais de limpeza do museu;

3 – Estabelecimento de sub comissões A3P com designação de pequenas tarefas que gerem economias de recursos e uma maior sensibilização da equipe do museu.


Após tais ações estarem plenamente efetivadas, novas ações serão elencadas e implementadas de modo a atingir as metas previstas no Plano de Trabalho assinado entre o IBRAM e o Ministério do Meio Ambiente em 2012.

***

IMPORTANTE 
Nosso blog entrará em recesso durante o mês de março.
Voltaremos com nossos posts no próximo mês de abril. Até lá.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Como fazer Calda Bordalesa?

Para quem tem um pequeno jardim ou uma pequena horta, vale a pena aprender a fazer a Calda Bordalesa em casa. Fungicida natural que age contra a chamada "ferrugem" dos caules, contra o "cancro cítrico" (causado pela bactéria Xanthomonas axonopodis pv. citri.), contra a "vassoura de bruxa", que ataca os cacaueiros - e é causada por um fungo - entre outras pragas, a Calda Bordalesa é simples de fazer e de aplicar. Foi outra das boas receitas utilizadas em Agricultura Orgânica que o produtor rural, Sr. Alexandre Lopes, nos ensinou em sua oficina no último aniversário de nosso museu. Confira o vídeo:



Para registrar - a Calda Bordalesa é feita com:
50 g de sulfato de cobre
50 g de cal virgem
(medida aproximada pois sempre há perda durante o processo)
Deve-se utilizar luva e máscara protetora para manusear estes ingredientes e também a calda.
Coloca-se cada um dos materiais em um tecido de algodão, faz-se uma trouxinha e pendura-se dentro de um vasilhame plástico com água, deixando as substâncias filtrarem lentamente. Retira-se as trouxinhas, e a calda está pronta!

Note que o Sr. Alexandre também citou a Calda Sulfocáustica, um outro fungicida feito com enxofre e cal virgem. Esta, no entanto, deve ser feita e utilizada na mesma hora, diferente da Calda Bordalesa que pode ser guardada para posterior aplicação.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Acervo: máquina de datilografia

A máquina de escrever que pertenceu a Amilcar Botelho de Magalhães, sobrinho de Benjamin
Constant: um exemplar antigo de um artefato pouco conhecido pelos jovens de hoje em dia.

Microcomputadores, notebooks, celulares, tablets: o verdadeiro "arsenal" de equipamentos de comunicação atual - também utilizados para registrar textos de qualquer tipo - não permite aos mais novos sequer imaginar que, em passado não muito distante, nos utilizávamos de máquinas de datilografia, mecânicas ou - um tremendo avanço! - elétricas... Muitos jovens sequer viram uma delas em suas vidas. E, em nosso museu, temos um exemplar cheio de história para contar.

A máquina de braille de nosso acervo: note as diferenças e as semelhanças com a máquina de datilografar.

Ela está no que seria o escritório de nosso patrono, Benjamin Constant. Não é da época dele, pois as primeiras máquinas datilográficas utilizadas no país foram importadas em 1912 pelo Jornal do Brasil. O Professor Benjamin Constant escrevia a bico de pena, assim como seus alunos. Já seu sobrinho, Amilcar Botelho de Magalhães, utilizou-se desta peça em seu trabalho junto à Comissão de Proteção aos Índios, na segunda gestão de ninguém menos que o Marechal Candido Rondon - que foi aluno e discípulo de Benjamin Constant. E desta forma recebemos a máquina de escrever (outra denominação da peça) exposta em nosso museu casa.

O escritório do Professor Benjamin Constant - que escrevia a bico de pena - e duas máquinas
de escrever: com alfabeto braille, em primeiro plano, e a comum, ao fundo.

Trata-se de uma máquina fabricada pela norte americana da Royal Typewriter CO. INC., de Nova York. Com corpo de metal pintado em preto, e uma tecnologia ainda bem antiga, estima-se que sua fabricação ocorreu por volta da década de 30 do século XX. É interessante notar algumas semelhanças com a Máquina de Braille, exposta no mesmo ambiente, que foi doada a nosso museu por Maria Renda da Silva, ex-aluna do Instituto Benjamin Constant. Teclas, alavancas e papel eram comuns a ambas. E a finalidade também, a mesma: registro de textos, sendo que uma delas registrava o texto na linguagem dos deficientes visuais, o Braille.

É enfim uma feliz coincidência que você pode ver em um dos cômodos de nosso museu casa: como a humanidade avançou na tecnologia de escrever/registrar em papel, em relativamente breve espaço de tempo: do bico de pena ao teclado.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

História: como foi criado o Museu Casa de Benjamin Constant? - 3ª parte

Placa histórica com inscrição do título de "Fundador da República Brasileira" atribuído a Benjamin Constant.

Neste post destacamos alguns ideais de nosso patrono que contribuíram para que ele fosse entronizado como heroi nacional e de como, neste processo, a casa histórica foi sendo o ponto de apoio para a lembrança de seu nome.

"Ser um herói não estava entre os planos de Benjamin Constant. Mais de uma vez sinalizou que recusaria ser o líder máximo do governo, deixando claro que não disputaria as eleições para Presidente da República, caso fosse indicado para a corrida eleitoral. Esse é um dos indícios de que Benjamin nunca desejou estar na mira de holofotes.

Sua militância, se podemos usar a palavra, era a ciência e a educação. Benjamin Constant tinha um objetivo pessoal que levou consigo durante seus dois últimos anos de vida: reformar o ensino no Brasil. Certa vez afirmou que “o engrandecimento da República repousa essencialmente sobre a educação”. Muito se esforçou para isso, recusou trabalhos que poderiam lhe trazer prestígio e antes de morrer conseguiu submeter o projeto de reforma do ensino público brasileiro. Porém, a vontade individual é, não raro, sobrepujada pelo triunfo da vontade coletiva e, nesse caso, política.

O título de Fundador da República, outorgado a Benjamin pelo Congresso Nacional dois dias após seu falecimento, e também registrado nas Disposições Transitórias da Constituição de 1891, a primeira da era republicana, coroou o que o historiador Renato Lemos chamou de entronização de Benjamin no panteão de heróis nacionais.

Além do título, a Carta previu o destino da última residência do homenageado: 'O Governo federal adquirirá para a Nação a casa em que faleceu o Doutor Benjamin Constant Botelho de Magalhães e nela mandará colocar uma lápide em homenagem à memória do grande patriota - o fundador da República' (Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, Disposições Transitórias, Artigo 8º, 24 de fevereiro de 1891)


O trecho é precedido pela oferta do governo de uma pensão vitalícia a D. Pedro II que, 'a contar de 15 de novembro de 1889, garanta-lhe, por todo o tempo de sua vida, subsistência decente'. Ao mesmo tempo em que lembra o último imperador, faz surgir a figura do fundador do regime que pôs fim ao Império.


Casarão que foi a residência do Marechal Deodoro da Fonseca no Rio de Janeiro: mais uma "casa da república".

Quando lembramos que a residência de Deodoro também recebeu uma placa memorativa do seu ato proclamador, podemos imaginar que a elite política produzia os sítios históricos da República, vinculando-os às figuras públicas do novo regime. No caso de Benjamin Constant, nada melhor que a morte como convite à uma entronização que ultrapassou a demarcação física de sua residência como um lugar histórico, gerando a primeira iniciativa museológica da República brasileira.

Aspecto da Casa de Bernardina.
Entretanto, a casa ainda esperaria muito até que fosse transformada em museu. A família permaneceu morando na chácara e uma parte do terreno foi desmembrada para uso particular de Bernardina Constant Serejo e João de Albuquerque Serejo. Nesta área foi construída a segunda residência da chácara, conhecida hoje como Casa de Bernardina.

Em 1958 o General Pery Constant Beviláqua, bisneto de Benjamin Constant, solicitou o SPHAN uma intervenção no imóvel, que se encontrava em ruínas. Araci Constant, filha mais nova de Benjamin, morou na casa até 1961. Prontamente o SPHAN começou os estudos e tombou a casa como patrimônio histórico nacional, com um parecer favorável de Carlos Drummond de Andrade (então funcionário da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - SPHAN).


Drummond, à direita, em 1951 - época em que trabalhou no SPHAN -
junto com o presidente do órgão, Rodrigo de Mello Franco.
Vale registrar que para Drummond de Andrade seria desnecessária a pesquisa e justificativa para o tombamento, já que a historicidade da casa foi estabelecida pela Carta de 1891, restando ao SPHAN inscrever o imóvel no Livro de Tombo e produzir documentação fotográfica do imóvel para compor o arquivo da Seção Histórica.

Sugestivamente, a morte de Benjamin – sua passagem da dimensão física para a mítica – marca o imóvel: o objeto do tombamento é chamado de “casa onde faleceu Benjamin Constant” (grifo atual) Portanto, o processo de tombamento da casa foi um desdobramento histórico da construção de Benjamin Constant como o Fundador da República
"

As próximas etapas desta pesquisa sobre a formação de nosso museu casa se prolongam de 1958 a 1982 - 4ª fase, período de montagem do museu propriamente dito - e de 1982 em diante - 5ª fase, com o museu já aberto. Aguarde que vem muito mais história por aí...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

História: como foi criado o Museu Casa de Benjamin Constant? - 2ª parte

Foto antiga com a vista de  nosso caramanchão que encantou Benjamin Constant.

Indo de 1890 a 1891, a 2ª Fase de nosso museu casa começa com Benjamin Constant elegendo-a para aluguel. Veja a continuação do texto de Marcos Felipe de Brum Lopes, nosso historiador:

"Como diretor do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, Benjamin Constant residia na escola (localizada no então "Campo da Aclamação", atual Campo de Santana). Após a proclamação da República e sua participação no Governo Provisório como Ministro da Guerra e, depois, da Instrução Pública, mudou-se para Santa Teresa. Provavelmente, procurou o bairro pelos seus benefícios à saúde: ar puro, clima mais ameno e bastante verde. O professor sofria de complicações hepáticas por conta da malária que contraíra na Guerra do Paraguai.

Segundo o diário de sua filha Bernardina, a família residiu primeiramente em outra casa do bairro e, depois, na chácara da rua Monte Alegre. Esta foi alugada por Benjamin que, sem mesmo observar cuidadosamente a casa, afirmou: “fico com ela”. A localização da propriedade, com uma vista aberta à baía de Guanabara, cativou-o desde o princípio.
 

O Escritório de Benjamin Constant.
Ampla e arejada, a casa oferecia o que Benjamin procurava: espaço para a família, tranquilidade e um ambiente salutar. Organizou seu escritório de estudo e trabalho num dos cômodos logo na entrada da residência, com biblioteca e mesa-gabinete. A sala de visitas era ideal para as reuniões que faziam parte do seu cotidiano de ministro.

Entretanto, Benjamin viveria pouco no local. Seus problemas de saúde agravavam-se e, em janeiro de 1891, falecia Benjamin Constant em sua residência, onde foi velado.
"

Entre 1891 e 1958 - período em que consideramos ser a terceira fase de nosso museu casa, a família de Benjamin Constant a ocupa em usufruto. Leia abaixo como foi o início desta fase:

D. Maria Joaquina, viúva de Benjamin Constant, com sua filha Aracy e seus netos na varanda da casa.
"Com o falecimento de Benjamin Constant, a casa passa a ser usufruto da viúva e dos filhos do casal, que não tinham condições de mantê-la. Por isso o governo republicano adquiriu a chácara, pagando 100 contos de réis ao proprietário Antônio Moreira dos Santos Costa e a transformando em próprio nacional. A transação foi feita em cumprimento do artigo 8º das disposições transitórias da Constituição de 1891, a primeira da era republicana, mas necessitou ainda do decreto legislativo nº6 de 29 de agosto de 1891, que autorizou a compra.

Além do objetivo prático de garantir o bem estar da família enlutada, a compra da casa de Benjamin Constant também fez parte da entronização do Fundador da República no rol de heróis nacionais. Sua morte e elevação à figura de apelo público marcou toda a trajetória da casa a partir de então como por exemplo, na época de seu tombamento
."

Observamos que a 2ª Fase da casa foi um período que determinou seu destino: aqui Benjamin Constant, morou, viveu e morreu. Observa-se também os longos anos em que a casa esteve em posse da família, ainda distante de se tornar o que é atualmente.