quarta-feira, 17 de setembro de 2014

"Tudo Que É Sólido Se Desmancha No Ar"

"Índio": obra de Pedro Grapiúna que se mimetiza com a natureza em seu entorno.

A frase é famosa e não é à toa. Trata-se de um excerto do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, que, originalmente, foi escrita da seguinte forma:

"Tudo o que era sólido se desmancha no ar, 
tudo o que era sagrado é profanado, 
e as pessoas são finalmente forçadas a 
encarar com serenidade sua posição
social e suas relações recíprocas."


O novo "manifesto" dos artistas de Santa Teresa.

Mas, segundo o texto de apresentação da mostra de mesmo nome, que ocupa os jardins de nosso parque desde a semana passada, essa declaração - um tanto "pesada", forte e desesperançosa - pode ser REpensada como algo mais leve e muito mais sutil. O convite ao público visitante é para que se deixe levar pelas experiências de cada artista participante, através de cada obra apresentada, e que rompa "o instituído para acolher novas experiências". O convite vai além e declara também que "(...) a arte dilui no ar a rigidez e o alheamento do homem consigo mesmo, com os outros homens e com a natureza", fazendo com que o espectador imagine algo muito mais descontraído e prazeroso.

A leveza de "O Tempo de Cada Um - entrevidas" de Miriam Miranda.


A expo conta com curadoria de Ziza Dourado e fez parte do 24º Arte de Portas Abertas, sendo inaugurada no último sábado, dia 13/09. Quatro artistas plásticos aceitaram o desafio de mostrar que o sólido pode sim, ser bastante leve. São eles: Pedro Grapiúna, Heloísa Pires Ferreira, Miriam Miranda e Vanda Martins (Meister). O evento vai até o próximo dia 12/10 e você pode experienciá-lo de segunda a domingo, das 8h às 17h, horário em que nosso parque está aberto ao público.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

24ª Edição do Arte de Portas Abertas em Santa Teresa



O tradicional evento que traz os moradores de toda a cidade a nosso bairro, acontece neste final de semana, dias 13 e 14 de setembro. Ateliês de artistas plásticos de diversas vertentes, técnicas e tipologias de trabalho abrem suas portas para receber um público ávido por beleza e novidade, além de diversão e entretenimento.

Além de trabalhos em nosso parque, o ateliê de Pedro Grapiúna também estará
aberto para visitas. Na imagem, seus trabalhos em metal.

O que de melhor tem sido feito na arte contemporânea em nosso tradicional, charmoso e autêntico bairro, estará disponível para os olhos dos visitantes. Eventos acontecem nos diversos ateliers, lojas, galerias e também nas ruas, o que traz muita gente que também valoriza a festa e o savoir vivre típicos desta parte da cidade. É um evento realmente imperdível que acontece apenas uma vez por ano. Por isso mesmo, não perca!

Um pedacinho do trabalho de Miriam Miranda em exposição em nosso parque.


Nosso Museu Casa estará aberto no horário normal dos finais de semana - entre 13h e 17h - com a novidade: no sábado, também estaremos "de portas abertas", ou seja, sem cobrança de ingresso, o que já acontece todos os domingos. Além disso, a já tradicional exposição de trabalhos de artistas do bairro, que ocupa nosso parque, sempre traz mais beleza a nossa área verde. "Tudo Que É Sólido Desmancha No Ar" é o nome da mostra neste ano, que conta com curadoria de Ziza Dourado e trabalhos de Vanda Martins (Meister), Pedro Grapiúna, Heloisa Pires Ferreira e Miriam Miranda, e fica disponível para visitação das 8h às 17h.


Clique para ver o mapa do evento
 
Venha aproveitar!

24ª Arte de Portas Abertas
Dias 13 e 14 de setembro de 2014 - de 10h às 18h
Ateliês, Museus, Centros Culturais e ruas de todo o bairro de Santa Teresa - Rio de Janeiro Organização: Chave Mestra

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Um curioso galheteiro

O galheteiro de nosso acervo: potes para sal, pimenta, óleo ou azeite, vinagre e palitos.


Realizando um "passeio do olhar" por nosso acervo, volta e meia verificamos um ou outro item diferente ou curioso, ideal a ser destacado por aqui. Aconteceu nesta semana: visualizando os itens ligados às refeições, encontramos uma peça incomum e, ao consultar seus registros, verificamos tratar-se de um galheteiro.

O galheteiro desmontado.

O que causa espécie nesta peça, é mesmo sua a forma: bem mais elaborada do que o mesmo objeto fabricado nos dias de hoje, possui curioso pote cônico em vidro, posicionado em cima de um tripé que recobre toda a peça. Intuímos que este elemento deveria conter algum líquido - já que seu formato facilita serví-los - e que o mesmo não tem tampa.



Um moderno galheteiro.

Mas o que é um galheteiro? Bom, como o utilizamos em nosso dia a dia, é fácil de explicar: o galheteiro é aquela peça onde se concentram pequenos potes de temperos e acessórios a serem utilizados numa refeição, tal como sal, pimenta e azeite, além de palitos. O dicionário informa que se trata de " utensílio de serviço de mesa onde se colocam as galhetas e, algumas vezes, recipientes para sal, pimenta e outros temperos". Pesquisamos um pouco mais e descobrimos que a palavra "galheteiro" vem de "GALHETA", que é o "conjunto de frascos com os líquidos usados na missa" (na igreja católica).

No passado, o conteúdo e a funcionalidade era a mesma, talvez com pequenas diferenças em termos de conteúdo - os temperos poderiam ser diferentes. Mas o hábito de usá-los à mesa ainda é o mesmo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Curiosidades do século XIX: gomil e bacia




Gomil - jarra que guardava água - e bacia em louça, utilizados pela família
de Benjamin Constant, no "Quarto da Moça", em nosso Museu Casa.

Para quem hoje está acostumado a encontrar banheiros - públicos e privados - com água encanada para lavar as mãos, por exemplo, é difícil imaginar que, há pouco mais de 100 anos (em algumas cidades, até menos que um século...), não existia água na torneira deste ambiente... Aliás, sequer existiam torneiras!

Belíssimo gomil em faiança portuguesa.

Na verdade, diversas fontes nos informam que os hábitos de higiene que possuímos hoje são bastante recentes, de até depois dos anos 1930! A necessidade de possuir esses bons hábitos só foi retomada no século XVIII na Europa, por questões de saúde pública. É quando a ciência moderna prova à sociedade que cada um dos indivíduos é, sim, responsável pela saúde coletiva.

No final deste século - o XVIII - os arquitetos passaram a incorporar o banheiro como um cômodo em uma casa. Logo em seguida, no século XIX, os artefatos e objetos utilizados nos banheiros começa a possuir uma estética própria e são desenvolvidos em inúmeros materiais, de acordo com o poderio econômico de seus usuários: mármore, louça, metais, etc., são escolhidos para compor o banheiro de acordo com o pedido dos donos das casas.

Um lindo gomil em prata e cristal em bico de jaca.

Os banhos aconteciam em tinas - de madeira, de louça, de metal com louça, entre outros materiais - e os médicos ainda banhavam à força os doentes nos hospitais. Segundo citação dessa época, encontrada em livro do historiador norte americano Lawrence Wright, "não era difícil encontrar um sujeito que, tendo de enfrentar a experiência do primeiro banho, demonstrasse verdadeiro terror, gritasse, tentasse escapar da sensação de sufocamento e palpitação que a água fria proporcionava".

E a higiene pessoal diária?

Como os banheiros não eram "completos", era necessário um pote com água e algum objeto que recebesse a água a ser descartada. É daí que surge a dupla muito utilizada no século XIX: o gomil e a bacia. "Famoso" em penteadeiras ou toucadores, não era nem mesmo necessário ir até o banheiro para se utilizar do gomil para lavar-se: encontrava-se ali, ao lado da cama, no quarto de dormir.

Gomil e bacia em louça ou faiança, típicas da 'toilette' das senhoras no século XIX.
Fonte: blog "Anabela na Casa da Vovó"

O gomil era o jarro onde se guardava a água a ser utilizada. A bacia o acompanhava para receber a água já utilizada. Note-se que esse hábito já era de uma classe mais alta, mais esclarecida e portanto afeita às necessidades de se manter a higiene pessoal. E, deste modo, encontramos essas peças feitas com tanto requinte e beleza como vemos nas imagens desse post. Uma aristocrata poderia ter seu gomil e bacia feitos em mármore talhado. Se achasse muito pesado, poderia encomendá-lo em louça colorida e cheia de detalhes. Ou, para um aristocrata muito poderoso, nada menos que a prata seria utilizada para criar seus objetos de higiene pessoal.

Membro de uma burguesia ainda claudicante, nosso patrono e sua família possuíam sim, gomil e bacia para uso pessoal. Existem três conjuntos em nosso acervo: um em louça e dois em ágate (ferro esmaltado). Certamente mais peças puramente utilitárias, sem nenhum glamour especial. Acredita-se que, já nesta época - final do século XIX - a necessidade de se manter limpo era reconhecida e praticada das classes mais altas às menos favorecidas. Daí, a confecção dos apetrechos necessários a ela em materiais mais simples e baratos se tornou imperativa. Antes de serem peças de arte trabalhadíssimas, essas peças se tornaram corriqueiras e todos as deveriam possuir. Por isso o fabrico em massa, menos que a artesanía que confeccionava peças preciosas, começou a dominar em todas os lugares.

Modernamente, ainda encontramos o uso do gomil e da bacia em residências de alto luxo, ou até mesmo
castelos habitados por famílias pertencentes à antiga nobreza, como um luxo e uma sofisticação que
distingue quem os utiliza. As peças da imagem - Lavanda e gomil de asa perdida D. João V em prata
portuguesa - encontradas num site de leilão, são um exemplo do que se encontra nestas ocasiões.

É muito interessante conhecer os detalhes do dia a dia dos habitantes das cidades há pouco mais de 50 ou 60 anos. De 70 anos para trás, até mais ou menos o século XVIII, tornam-se ainda mais diferentes os hábitos e costumes diários de "gente como a gente". E, já sabemos, somente com o conhecimento deste passado é que teremos como buscar um futuro ainda melhor para as futuras gerações.

Bacia e gomil em porcelana, século XIX. Monograma de André Pinto Rebouças
Fonte: Museu Histórico Nacional.



Nota Importante: em que pese o ideal ser a utilização de um conjunto de gomil e bacia por pessoa - se pensarmos exclusivamente em higiene pessoal - há fontes que indicam que, em sua maioria, as famílias do século XIX destinavam um conjunto de porcelana ou louça para cada quarto, um de estanho para a sala de visitas e um de ágate na cozinha. 


Fonte:
"Banheiros" - trabalho de alunos da disciplina "Tecnologia de Edificação I", do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina - encontrado no site da universidade em http://www.arq.ufsc.br/arq5661/trabalhos_2007-2/banheiros - em 25/08/2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Curiosidades: barba, cabelo e bigode no século XIX

Direto do acervo: o afiador de navalhas de Benjamin Constant
Um dos objetos que mais estimula a curiosidade dos visitantes de nosso museu é o afiador de navalhas que pertenceu a Benjamin Constant, que você vê na imagem acima. Ele fica no banheiro da casa museu, próximo a outros objetos do tipo, mas há sempre alguém "fascinado" por este aparelho em especial.

Trata-se de um modelo muito simples, onde se acomoda a lâmina da navalha num compartimento com pedra e, girando-se a manivela, a lâmina vai se afinando, voltando a estar amolada para um próximo uso.

Deste hábito de barbear-se em casa de nosso patrono, pesquisamos como eram as barbearias da cidade no século XIX, e ficamos sabendo fatos bastante curiosos sobre estes estabelecimentos.

Barbearia no século XIX.


É bom dizer que o ofício de barbeiro no século XIX se confundia com outros, tais como dentista e "sangrador", ou seja, aquele que "sangrava" as pessoas para curá-las de algum mal. As chamadas "sangrias" eram um remédio dos mais comuns no século XIX, mas sua execução não era atribuída ao médico que a prescrevia. Conforme diz Blach:

"Nesse sentido, um dos recursos mais utilizados nesse período era a sangria. Apesar disso, considerava-se a sangria um ramo da arte da cirurgia, que por sua vez, sendo uma atividade manual e que lidava diretamente com sangue, era desvalorizada em relação à medicina, uma “arte liberal”, que eximia o médico d e tocar no doente, senão para verificar o pulso. (BARRADAS, 1999) 

Desde a Idade Média, as pessoas que desempenhavam a sangria associavam-se em confrarias e pertenceriam a camadas sociais inferiores. No Brasil do século XIX, essa hierarquia das artes de curar se mantinha. Assim, naquele contexto, não havia ninguém mais apropriado para desempenhar as atividades de 'sarjar, sangrar e aplicar sanguessugas e ventosas' do que os escravos e os forros." 

E, como reforça Dantas:

"O exercício do ofício dos barbeiros remonta a Antiguidade Clássica, os usos, funções e atribuições do termo passaram por diversas transformações ao longo da História. Inicialmente o barbeiro, ou como era mais usual, o cirurgião-barbeiro acumulava um espectro de funções mais amplo do que na contemporaneidade:

[...]faziam barbas, raspavam, cortavam e aparavam cabelos e unhas; também faziam benzeduras, curativos, extrações de cravos, espinhas e furúnculos, vendiam raízes que serviam como espécies de remédios e, ainda, realizavam operações cirúrgicas. Além de sangrar, sarjar, aplicar bichas, ventosas e sanguessugas. (SILVA, s/d. s/n).

Com o passar do tempo o embate entre médicos e dentistas – ligados a formalização destas profissões junto às universidades – e os cirurgiões-barbeiros cuja profissão era perpetuada por meio da oralidade e da tradição, levou gradativamente a redução considerável do espectro de funções dos barbeiros. Já no século XIX suas atribuições já estavam oficialmente restritas ao corte de cabelos e barba e deste então esta tradicional profissão vem se adaptando e reinventando ao longo dos anos através das vicissitudes do tempo."

É possível notar que o panorama para senhores do trato de nosso patrono, Benjamin Constant, numa barbearia, não era dos melhores. Portanto era necessário - e bem mais confortável - possuir instrumentos para realizar em casa o que fosse necessário. Interessante notar como esta profissão, aos poucos, foi se tornando o que é hoje - e como a população masculina hoje em dia, de todas as classes sociais, voltou a frequentar as barbearias.

Fontes:
BLACH, Matheus. "Ofício dos barbeiros em BH: barba cabelo bigode" - encontrado na Revista Virtual "Sobre História" em http://www.sobrehistoria.org/oficio-dos-barbeiros - em 19/08/2014

DANTAS, Rodrigo Aragão. "A Trajetória de um Barbeiro Carioca Oitocentista" - encontrado no site da Sociedade Brasileira de História da Ciência - SBHC, nos Anais do 13º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia, 2012 - em http://www.sbhc.org.br/resources/anais/10/1343073087_ARQUIVO_Atrajetoriadeumbarbeirocariocaoitocentista.pdf - em 19/08/2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Um menino descreve o Plano Inclinado

Benjamin Constant Fraenkel, criança e ainda de cachinhos, sentado
na escadinha de acesso ao alpendre da casa de seus avós maternos.

Por ocasião dos levantamentos feitos para abertura do Museu Casa de Benjamin Constant, a museóloga Hercília Canosa Viana manteve correspondência com um dos netos de Benjamin Constant: Benjamin Constant Fraenkel, filho de Aldina e Karl Fraenkel, relata o que viu e viveu em casa do avô que não chegou a conhecer. Seu contato mais próximo com a figura de nosso patrono fora sua avó, Maria Joaquina, ainda viva quando o pequeno Fraenkel nasceu. Em uma de suas cartas à "Dona" Hercília, Fraenkel fala sobre o Plano Inclinado, que foi a forma como ele chegou, pela primeira vez, vindo da Europa, onde nascera, à casa de seu avô, Benjamin, em Santa Teresa, onde passava férias. Veja que belo relato de um meio de transporte esquecido pelo tempo e pela história, da cidade e do bairro, a partir das memórias de um homem que o utilizou ainda menino:

"(...) Chegamos, enfim, ao querido Rio. Ainda não havia o cais. O navio ficava ao longe e uma grande quantidade de barcos, com gente que vinha esperar os parentes e amigos, outros, com frutas para vender aos passantes, lanchas, todos fazendo um barulho tão grande, um falatório todo em português, que eu não me lembrar quem é que foi ao nosso desembarque e como cheguei ao Plano Inclinado!

Lembro-me só que tudo para mim foi uma surpresa, uma grata surpresa! O Plano Inclinado, de tantas recordações, foi demolido! Parecia que havia sido feito especialmente para a casa de meu Avô.

Para se tomar o Plano Inclinado, entrava-se por um corredor de uns quinze metros de extensão que corria ao lado da ladeira do Castro, e dela separada por um gradil de ferro. No fim desse corredor havia uma escada de uns dez ou doze degraus. No alto dessa escada havia um patamar de madeira onde uma outra escada de madeira, de uns quatro degraus, dava acesso para um outro patamar, mais estreito, e onde encostava o bondinho do Plano.

O bondinho devia ter uns sete ou oito bancos, com portinholas que eram fechadas, para garantia dos passageiros...

Quem abria e fechava as portinholas era o encarregado de cobrar as passagens que fazia também as manobras, travando e destravando os freios. A linha era uma só até o ponto em que se bifurcava para dar passagem ao outro bondinho, que descia. Um subia, outro descia, em sentido contrario, amarrados por um cabo de aço que era guiado por uma grande roldana horizontal, no alto do morro, e por diversas roldanas verticais situadas entre os dormentes.

O trajeto durava cinco minutos e o horário era de meia em meia hora. O bondinho, em seu percurso, atravessava dois viadutos, um logo ao sair da estação de baixo e ficava sobre a Ladeira do Castro, o outro, era uma ponte suspensa, de ferro, uma obra interessante, aliás, da qual existem algumas fotografias.

Logo ao chegar à segunda ponte descortinava-se a acolhedora e simpática casa de meu Avô e a grande chácara. Ainda hoje, passados mais de setenta anos, conser- nitidamente a vista do conjunto, tanto antes das obras executadas, como depois delas, dos dois prédios que lá existiam.

E, não é de admirar, que essa vista se gravasse, em quem via a sua terra pela primeira vez, tão linda e tão diferente das outras em que vivera e onde se falava, para qualquer lado que se virasse a língua sonora e familiar, que só ouvira em sua casa.

Na estação de cima, o maquinista que movimentava as máquinas, fazia-o quando o condutor do bonde mostrava, lá de baixo, um grande disco, que era branco de um lado e vermelho do outro, para avisar à estação terminal se tudo estava pronto ou não. À noite, uma luz se agitava no lugar do desvio.

Quando bondinho chegava ao ponto terminal o condutor abria porta por porta e os passageiros, quasi
(sic) todos, saiam para tomar o outro bonde, elétrico cujo destino final era Paula Matos.

Os passageiros que não tomavam o elétrico, quase todos se dirigiam para a casa do meu Avô, ou para a rua do Triunfo e passavam por uma pequena ponte, transversal à linha do Plano Inclinado.

Depois da ponte havia um portão de ferro, em cujas pilastras a minha Avó mandara colocar as letras B e C. Do portão, uma escadinha dava para uma rampa que passava pela casa que depois foi reformada pelo meu tio, o Marechal Serejo.

Ao meio da rampa havia um desvio que servia de entrada para essa casa, colocada parte sobre o morro e cuja parte de baixo parecia ter sido uma cocheira com suas largas portas, o que justifica também a larga rua de paralelepípedos, desde a varanda da frente até o largo portão da Rua Monte Alegre.

Parece-me, assim, que essa casa era a residência do cocheiro, do antigo dono, e que também vigiava a entrada. Do outro lado da rampa, (uma escadinha de uns três degraus levava a) um jardim, abaixo do nível da casa (para ele, se descia por uma escada
[a sudoeste] uns 3 degraus), cercado, e que dava para o leito do Plano Inclinado."

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O Plano Inclinado de Santa Teresa

Foto a partir da Rua Joaquim Murtinho na época do Plano Inclinado: vê-se bem o
último viaduto da engenhoca, bem defronte à chácara de Benjamin Constant.

Cartão postal da cidade do Rio de Janeiro, os bondinhos de Santa Teresa sempre despertaram a curiosidade de quem visita a cidade, sejam brasileiros ou oriundos de outros países. Excetuando-se os últimos anos em que o meio de transporte - e também de lazer - está parado (veja o porquê em nosso post anterior), a população de nossa cidade também sabe de sua existência e, pelo menos uma vez na vida, vem até o bairro para "andar de bondinho", inclusive trazendo crianças para conhecê-lo. Assim tem sido.

No entanto, podemos afirmar que pouquíssimos moradores daqui mesmo, do bairro de Santa Teresa, já ouviram falar do antigo "Plano Inclinado" que existiu entre a "Rua de Matacavalos" (antigo nome da Rua do Riachuelo), e o Largo do Guimarães, no centro da localidade. Quem visita nosso Museu Casa passa a saber que este "meio de transporte" também existiu, entre 1877 e 1894 (aproximadamente) , e que funcionava em paralelo aos bondes que chegavam ao bairro por outras ruas e ladeiras.


Observe a parede em pedra que fica em nosso platô inferior do jardim (em frente à Ladeira do Castro): por estes dois buracos passavam cabos do Plano Inclinado que funcionva em frente à então chácara de Benjamin Constant.


O equipamento também pertencia à "Empresa de Carris de Ferro de Santa Teresa", proprietária dos bondes que então serviam a todo o bairro. A diferença é o Plano Inclinado funcionava a vapor. Sim! Antes mesmo dos bondes a vapor e dos bondes elétricos, o meio de transporte que cortava a Ladeira do Castro já se utilizava de "tecnologia mais avançada" que estes últimos.


Inaugurado em 1877, partindo da estação da Rua do Riachuelo, o Plano Inclinado passava bem em frente da casa onde residia Benjamin Constant. Na verdade, a chácara era vizinha dos equipamentos a vapor que moviam o "bondinho" do equipamento - era a última residência que se beneficiava do transporte. Assim sendo, era comum que Benjamim o utilizasse para chegar e sair de sua casa, assim como quem o vinha visitar.


No terreno do museu ainda existem vestígios das fundações de pedra do último viaduto do plano inclinado, bem como na antiga oficina dos motores a vapor, que foi adaptada para atender às necessidades de reparo dos bondes elétricos, que começaram a circular no bairro em 1894. Nesta época, os Arcos da Lapa - que até então serviam de aqueduto para a água da fonte do Largo da Carioca - passaram a servir aos passageiros que se deslocavam entre o centro da cidade e o bairro de Santa Teresa, pois ligavam os morros deste bairro com o de Santo Antonio.

Foto de um dos atuais planos inclinados da cidade de Salvador - BA, nos mostra algumas
semelhanças com o que existia em Santa Teresa no século XIX.

Na melhor imagem que possuímos deste antigo equipamento - que faz parte de nosso arquivo documental - é possível visualizar o tamanho do último viaduto: era algo realmente de porte e, segundo relatos do pequeno Benjamin Fraenkel, neto de Benjamin Constant, "o bondinho devia ter uns sete ou oito bancos, com portinholas que eram fechadas, para garantia dos passageiros...(...) A linha era uma só até o ponto em que se bifurcava para dar passagem ao outro bondinho, que descia. Um subia, outro descia, em sentido contrario, amarrados por um cabo de aço que era guiado por uma grande roldana horizontal, no alto do morro, e por diversas roldanas verticais situadas entre os dormentes.(...)".

Há pouca documentação sobre o Plano Inclinado nos dias de hoje, mas ainda é possível recuperar grande parte do que ele foi no passado. Nossa intenção é a de pesquisar e a de possuir mais e mais dados a respeito, de modo a disseminar essa informação para todos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Curiosidades: o início do transporte coletivo no Rio de Janeiro

Na imagem, um ônibus francês da época do primeiro ônibus carioca,
provavelmente semelhante aos que foram utilizados aqui.

Com uma frota de milhares de ônibus de todos os tipos e tamanhos, que superlotam todas as vias da cidade - seja as de bairros mais afastados do centro da cidade, seja na afobação do centro financeiro, comercial e de negócios - fica bem difícil hoje em dia imaginar que nada disso existia há cerca de 100 anos. O que pode ser considerado como o "primeiro ônibus" que circulou no Rio de Janeiro, em julho de 1838, se assemelha a uma carruagem grande, com dois andares e tração feita por dois cavalos à frente. Foram apenas dois destes veículos da chamada "Companhia de Ônibus" - concessionária do serviço - que iniciaram o transporte coletivo no Rio, ligando o centro da cidade a Botafogo, ao Engenho Velho (atual Tijuca) e a São Cristóvão.

Um estacionamento de "gôndolas fluminenses".

Antes ainda da entrada dos bondes em cena, houve um tipo de veículo de menor porte que o "ônibus" puxado a cavalo, que também fez parte da frota de coletivos da cidade: as chamadas "gôndolas fluminenses" comportavam apenas nove passageiros e se assemelhavam a um carro de passeio. O valor do bilhete era inferior aos dos ônibus e por isso fizeram sucesso. Dom Pedro II ainda não era o imperador quando a licença para circulação de tal meio de transporte foi emitida e, apesar das cinco gôndolas aguardadas, somente duas efetivamente circularam pela cidade.

O bonde elétrico no Rio.


O primeiro bonde do país começou a circular em nossa cidade em janeiro de 1859, em caráter experimental. Dois meses depois, com a presença do então Imperador e sua esposa, a chamada “Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boa Vista” começou a operar de forma regular. Em 1862 a tração animal foi substituída pelo vapor, e o primeiro bonde elétrico do Brasil e da América do Sul fez seu trecho inaugural - entre o centro da cidade e o Largo do Machado - 20 anos depois, em 1892. O bonde elétrico pertencia à "Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico", pois a Cia. Cidade à Boa Vista faliu em 1866.

Registrados por Marc Ferrez, os Arcos da Lapa à época em que foram adaptados
para receber os bondes que iam do Morro de Santo Antônio, no Centro do Rio,
ao bairro de Santa Teresa.

Os únicos bondes mantidos em funcionamento em todo país até os dias atuais foram os de nosso bairro, Santa Teresa. Seus serviços nunca foram interrompidos, apesar de grande pressão nesse sentido ao longo de muitas décadas. A Companhia Ferro-Carril Carioca iniciou o serviço de bondes no bairro na década de 1870, eletrificou as linhas em 1896, e ainda aproveitou o antigo aqueduto da época do Brasil Colônia como via de acesso ao bairro. Também conhecido como “Arcos da Lapa”, o aqueduto foi o responsável pela bitola especial dos bondes de Santa Teresa: 1,10 metros.

Tristemente, em agosto de 2011, já sob gerenciamento da Secretaria de Transportes do estado do Rio de Janeiro, os bondes de Santa Teresa interromperam seus serviços devido a um grave acidente com um deles, com 57 feridos e 6 mortos. Mesmo assim, a esperança de vê-los novamente em bom estado e transportando os visitantes e moradores do bairro persiste e, de fato, o governo do estado iniciou as obras de recuperação dos equipamentos necessários à circulação dos bondes no fim de 2013.


Fonte: Minasbus MG